sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A POBREZA DO HOMEM COMO RESULTADO DA RIQUEZA DA TERRA

Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta.

Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçou suas funções.

Este já não é o reino das maravilhas, onde a realidade derrotava a fábula e imaginação era humilhada pelos troféus das conquistas, as jazidas de ouro e montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina ganha produzindo-os.
São muito mais altos os impostos que cobram os compradores do que os preços que recebem os vendedores; e no final das contas, como declarou em julho de 1968 Covey T. Oliver, coordenador da Aliança para o Progresso, "falar de preços justos, atualmente, é um conceito medieval. Estamos em plena época da livre comercialização..." Quanto mais liberdade de outorga aos negócios, mais cárceres se torna necessário construir para aqueles que sofrem com negócios.
Nossos sistemas de inquisidores e carrascos não só funcionam para o mercado externo dominante; proporcionam também caudalosos mananciais de lucros que fluem dos empréstimos e inversões estrangeiras nos mercados internos dominados. "ouve-se falar de concessões feitas pelos Estados Unidos ao capital de outros países... É que nós não fazemos concessões", advertia, lá por 1913, o presidente norte-americano Woodrow Wilson. Ele estava certo: " E tinha razão. Na caminhada, até perdemos o direito de chamarmos-nos americanos ainda que os haitianos e os cubanos já aparecessem na História como povos novos, um século antes de os peregrinos do Myflower se estabelecerem nas costas de Plymouth. Agora, a América é, para o mundo, nada mais do que os Estados Unidos: nós habitamos, no máximo, numa sub-América, numa América de segunda classe, de nebulosa identificação. (...)

Tudo nos é proibido, a não ser cruzarmos os braços? A pobreza não está escrita nos astros;
o suddesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus.
As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos.
De certo modo, a direita tem razão quando se identifica com a tranqüilidade e a ordem em última análise; a tranqüilidade de que a injustiça continue sendo injusta e a fome faminta. Se o futuro se transforma numa caixa de surpresas, o conservador grita, com toda razão: "Trairam-me" . E os ideólogos de impotência, os escravos, que olham a si mesmos com os olhos do dono, não demoram a escutar seus clamores. A águia de bronze do Maine, derrubada no dia da vitória da revolução cubana, jaz agora abandonada, com as asas quebradas sob o portal do bairro velho de La Habana. A partir de Cuba, outros países iniciaram, por vias distintas e com meios distintos, a experiência de mudança: a perpetuação da ordem atual das coisas é a perpetuação do crime. Recuperar os bens que sempre foram usurpados, equivale a recuperar o destino.


Informações do livro As Veias Abertas da América Latina (Eduardo Galeano)